sábado, 15 de abril de 2017

Malunguinho, herói anônimo dos quilombos - Primeira matéria de jornal sobre o Reis do Catucá

Digitalização da matéria - Jornal do Commercio, 21 de Maio de 2000, Cidades, p. 8.

Cumprindo a missão do Quilombo Cultural Malunguinho de informar, formar e empoderar o Povo da Jurema com informações de qualidade, compartilho este achado histórico importante, que transcrevi de meus arquivos pessoais. Esta foi a primeira matéria em um jornal que tratou do tema da pesquisa do professor PhD em História Marcus Carvalho. No texto, poderemos ter acesso a importantes informações que nos ajudarão a entender mais a história e o contexto cultural/religioso de Malunguinho.  Aproveitem, compartilhem. Este texto é fantástico. Já avançamos muito desde estes tempos na compreensão da figura histórica e divina Malunguinho, mas esta matéria é incrível. Sobô Nirê Mafá #ReisMalunguinho!

 Malunguinho, herói anônimo dos quilombos

HISTÓRIA Há poucos registros sobre o mais procurado líder dos escravos no Estado no Século 19. Ele comandava refugiados do Catucá, na Mata Norte. 

Jornal do Commercio, 21 de Maio de 2000, Cidades, p. 8.
Cleide Alves

Líder quilombola mais temido em Pernambuco nas primeiras décadas do século 19, o negro Malunguinho é dono de uma história singular, porém praticamente anônima. Basta dizer que o Conselho de Governo, principal órgão consultivo da província e que deu origem a Assembléia Legislativa, gastou uma reunião inteira discutindo um possível ataque dos escravos refugiados na Floresta do Catucá (Mata Norte, entre Recife e Goiana) ao Recife. A suposta invasão aconteceria em 1827, comandada por Malunguinho.

Na ata da reunião (29/01/1927), o governo provincial oferece um prêmio pela prisão dos três principais chefes dos quilombos do Catucá: 100 mil réis pela cabeça de Malunguinho, 50 mil réis por Valentim e a mesma quantia para Manoel Gabão. “Cem mil réis, na época, foi a maior quantia já oferecida pela captura de alguém vivo ou morto em Pernambuco”, observa o professor do Programa de Pós Graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Marcus Carvalho.

Além da recompensa, foi determinado que todos os negros apanhados nos quilombos fossem vendidos ou mandados por seus donos para fora da província, “para o Sul, além Rio São Francisco, e para o Norte, além do Parnaíba”. A ata da reunião está no acervo do Arquivo Público Estadual.

Segundo Marcus Carvalhos, a data do início da ocupação da Floresta do Catucá não é precisa, mas os movimentos políticos e sociais exerceram influência. “Muitos escravos devem ter aproveitado a Insurreição Pernambucana (1817) e fugiram para as matas, pois vários donos de engenhos localizados nas proximidades do Catucá faziam parte da revolta”, explica. Ele informa que os quilombos do Catucá (ou do Malunguinho) foram atacados sistematicamente pela polícia.

Há registro de diligências policiais em 1821 e 1824 e o líder mais citado em todas é Malunguinho. Numa das tentativas de acabar com os quilombos foram presos 63 negros. As diligências menores eram feitas com cerca de 60 soldados e jagunços, enquanto que as maiores chegavam a 700 homens. “Em 1824, o governo chegou a usar as tropas do Exército que tinham vindo do Rio de Janeiro para combater os rebeldes da Revolta de 1817”.

O professor acrescenta que os quilombolas mantinham contato com outros negros (familiares e amigos) que viviam nos engenhos e nas cidades. Além de ajudar os escravos fugitivos com gêneros alimentícios, essas pessoas informavam aos quilombolas sobre as diligências. “Era comum a polícia chegar nas matas e encontrar casas, mocambos e lavouras recém abandonadas, mas nenhum negro”.

O coração dos quilombos do Catucá ficava numa região conhecida como Cova de Onça, entre Olinda e Igarassu, na antiga margem do Rio Paratibe. Os escravos fugiam do Recife e dos Engenhos da Mata Norte, formando pequnas comunidades no Catucá.

Malunguinho, de acordo com Marcus Carvalho, é o aportuguesamento da palavra Malungo, de origem banto e que significa “canoa grande”. Malungo é traduzido também como “companheiro” e serve para identificar as pessoas que vieram no mesmo navio negreiro. “É um laço muito forte”.

Nos documentos da polícia não há registro da morte ou captura de Malunguinho. O quilombo foi dizimado por volta de 1830. Um dos fatores que mais contribuíram foi a criação da Colônia Amélia, formada por soldados de origem germânica que haviam lutado na Guerra da Cisplatina. Como o governo queria acabar com os quilombos, ofereceu terras aos soldados na Floresta do Catucá. “Os soldados não sabiam que a área já era ocupada pelos negros. No confronto, a família alemã Cristiane foi massacrada”.

Líder negro do século 19 é cultuado como divindade

No culto da Jurema, Malunguinho é uma entidade de grande poder, que se manifesta de três formas bastante distintas: Exu, Caboclo e Mestre. O primeiro representa o mensageiro, fazendo o elo de ligação da linha da Jurema com as pessoas. O segundo é a figura do guia, o principal protetor dos iniciados no culto. O terceiro representa alguém que teve existência real na terra.

A Jurema, segundo o pesquisador Hildo Leal da Rosa, é um culto religioso de origem Indígena (existe no Brasil desde o século 16), mas que também carrega elementos afros (negros) e cristãos (brancos). “Malunguinho é uma entidade que fala pouco e não demora muito quando incorpora. Suas palavras são meio truncadas como uma criança falando, e a língua mistura português com outro idioma”, diz Hildo Leal.

Durante o culto, as mensagens trazidas pela entidade são repassadas a um médium. “Quando a pessoa está com um problema sério e precisa de uma proteção grande, uma das primeiras entidades chamadas para ajudar é Malunguinho”, diz o pesquisador. Trazido como um Exu muito forte, Malunguinho também é invocado nas cerimônias para levar embora os outros exus.

Antes de começar as cerimônias, o grupo sempre pede proteção a Malunguinho. “Isso é uma história muito bonita. O povo pega um herói popular que existiu de verdade, guerreiro, líder dos negros e o coloca no olimpo das divindades”, acrescenta o historiador Marcus Carvalho. Várias cantigas usadas no culto da Jurema citam o nome de Malunguinho.

“Subir ao panteão das divindades é talvez a maior homenagem que um povo pode prestar aos seus heróis”, destaca Marcus Carvalho na publicação O Quilombo de Malunguinho, o rei das matas de Pernambuco (Liberdade por um fio/História dos quilombos no Brasil, editado pela Companhia das Letras). Para Marcus Carvalho, a unidade entre a divindade e o guerreiro da floresta do Catucá é evidenciada em uma cantiga que cita um antigo aparato militar usados pelos quilombolas, os estrepes.

Marcus Carvalho explica que estrepes eram paus pontudos fincados no chão, as armadilhas ou expostos, para impedir os ataques dos soldados aos quilombos. “Muitos soldados caíam nas armadilhas ao perseguir os negros. Vem daí a expressão ‘se estrepar’”, observa. “O Malunguinho da Jurema, que tem o poder de tirar os estrepes do caminho, é, portanto, a recriação simbólica do próprio Malunguinho do Catucá, o verdadeiro rei das matas de Pernambuco”, escreve o historiador na mesma publicação.

Cantigas da Jurema que citam Malunguinho

“Malunguinho portal de ouro
Malunguinho portal de espinho cerca, cerca
Malunguinho tira os estrepes do caminho”.

“Na mata só tem um
é o rei Malunguinho
o rei dos espinhos
na mata é Malunguinho”.

“Firmei meu ponto sim
no meio da mata sim
salve a coroa de Rei Malunguinho
das matas é Rei Malunguinho
das matas é rei
Rei das matas é Malunguinho
Mas eu sou preto e gosto dos pretinhos
Salve a coroa do Rei Malunguinho”.

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Entrevista sobre Teologia Afro com o Teólogo Jayro Pereira de Jesus



Entrevista sobre Teologia Afro com o Teólogo Jayro Pereira de Jesus

O Povo de Terreiro precisa ouvir essa entrevista linda do omo Ogiyàn, teólogo afro e professor Jayro De Jesus. Ele é um dos maiores intelectuais negros de nossa religião e precisa ser ouvido e compreendido. É nosso dever publicar conteúdos de grande relevância para ampliar a percepção de mundo e a criticidade afro indígena de nosso povo. Compartilhem, este vídeo tem axé!

Abaixo, texto original desta postagem no canal do YouTube do Cultne. O vídeo encontra-se neste link: https://www.youtube.com/watch?v=TUUOZT-ffEA&t=708s e também no link de meu canal do Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=7RsBlCoKKa8 

Programa exibido em 01 de abril de 2017 na TV Alerj tendo como convidado o teólogo e professor Jayro Pereira de Jesus..
CULTNE NA TV é um programa para TV que utiliza a riqueza do acervo Cultne além de novos conteúdos num mix de leveza e informação sobre cultura negra. O programa Cultne na TV está no ar na TV ALERJ, uma TV a cabo pertencente ao poder legislativo do Estado do Rio de Janeiro.

Exibição semanal o Cultne na TV traz para a televisão uma importante contribuição para a diversidade da imagem veiculada na mídia brasileira. O programa vai dar aos telespectadores da TV Alerj a oportunidade de se informar, se emocionar, desconstruir preconceitos, a partir de fatos da história contemporânea do movimento negro no Brasil.

O programa é uma parceria da TV Alerj, com o Acervo Digital de Cultura Negra, tendo sido contemplado com os recursos do Edital Viva o Cinema da Rio Filme/ Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro em 2015..

CULTNE, site que reúne um grande conteúdo audiovisual de importantes momentos da história recente dos afros brasileiros. São momentos que retratam as manifestações culturais, artísticas e esportivas, um material que contribui para o ineditismo do programa.
Divididos em dois blocos e com duração de vinte e oito minutos, o programa tem o formato de entrevista em estúdio. O apresentador Ricardo Brasil, e o convidado, vão ficar cara a cara, num papo envolvente. O apresentador conduz a entrevista tendo como fio condutor, a exibição de vídeos em um tablet. São vídeos onde o convidado aparece atuando em algum episódio histórico, ou de fatos que tenham relevância com história de vida do entrevistado. A ideia é contextualizar a história e aprender com ela.

O programa é direcionado a todo e qualquer público, independente de classe social, raça, idade, religião e sexo. É uma atração que vai dar a oportunidade a todos e a todas, de conhecer o passado para repensar o presente.

______________________________________

Obrigado a JF Neto por ter me ajudado a subir este vídeo.

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

50 anos de axé de Mãe Lu Omitòógún - Iyemojá Ògúnté Mi, firme como uma montanha!


50 anos de axé
Àjòdún Àádota

Iyemojá Ògúnté Mi, firme como uma montanha!

Foi em um Janeiro de 1966 que uma jovem negra de apenas 16 anos, filha de Iyemojá Ògúnté, se iniciou na tradição nagô de seus avós e pais em rituais de muito segredo e discrição. Lá no passado, em um período de grande perseguição às religiões afro que a doce adolescente nasceu para o Orixá.

Teve em sua cabeça as fortes mãos da Sra. Maria Vicentina da Costa, a Tia Vicência - Ifádayrò  (de Iyemojá Sesú), sua iyalorixá, filha adotiva de Ignês Joaquina da Costa – Ifatinuké, e teve como pai (no ritual) Olofin Oduduwá, “padrinho” do Sítio de Pai Adão.

Participaram deste ritual, seu pai carnal Malaquias Felipe da Costa – Ojé Bií, e como “padrinhos” Paulo Braz Felipe da Costa – Ifátòógún (seu irmão carnal) e o Sr. Toinho do Monte. Sua “madrinha” foi Tia Mãezinha – Iyamidè, filha carnal de Pai Adão, que dela cuidou dentro do Peji do Sítio junto com Tia Vicência nos dias de seu resguardo religioso.

Sua trajetória, iniciou mesmo na Jurema Sagrada, quando nos antigos tempos do Nagô, era necessário primeiro confortar os caboclos e caboclas para se ter a permissão para “fazer o santo”. Consagrada para o Caboclo Viturino e o mestre Antônio, tinha em sua mãe carnal a maior escola possível nesta “ciência mestra”, já que a Sra. Leônidas Joaquina da Costa - Omisèun era uma grande juremeira, herdeira da tradição indígena de seus pais e avós.

Ela ainda herdou a tradição da fé em Nossa Senhora da Conceição (sincretizada com Iyemojá nos cultos de matriz africana de Pernambuco), santa católica que sempre foi adorada por Pai Adão, pelo seu Pai e hoje por ela com profundo amor, devoção e fervor. Aprendeu a rezar o mês mariano e zela pela imagem de Maria, que tem mais de 180 anos de existência, pois pertenceu a Pai Adão no passado.

É isso mesmo, a menina herdou a tradição da tríplice pertença religiosa. A Jurema, a Tradição Nagô e o Catolicismo Popular vivem harmonicamente em seus caminhos do axé. Seu cosmo é regido por este universo xenofílico.

A menina cresceu e se demonstrou uma grande iyalorixá. Com sorriso largo, carisma sem igual, suavidade nas palavras, sabedoria nos conselhos dados, humildade religiosa e devoção ímpar, ela trouxe para junto de si centenas de filhos e filhas que a amam e comungam de sua trajetória de vida com felicidade. Ela tem mão odara, e quem se banha em suas águas, conhece o bem e a beleza da vida afroreligiosa.

Hoje, a Sra. Maria Lucia Felipe da Costa, Mãe Lu Omitòógún, de 65 anos de idade, sacerdotisa mor do Ilé Iyemojá Ògúnté, é na linhagem hierárquica nagô a iniciada à Ògúnté mais antiga viva do Sítio de Pai Adão. É professora formada em Letras/Inglês e pós-graduada em história das artes, mãe de uma única filha carnal chamada Bárbara (atual mãe pequena do terreiro) e professora de uma escola de referência no Recife.

Ela é oceânica! Mulher de grande respeito. Cuidadora e criadeira de muitos filhos adotivos. Arrimo de família. Guerreira e sonhadora. Consciente de seu papel como mulher negra, milita na causa ainti-racismo. Ensina que devemos lutar por nossos direitos e vai à luta com seus filhos, pois é uma mãe sem igual. Ela compra as brigas dos filhos sim, encara a guerra e vence as batalhas que a vida nos traz. Ela segura em nossas mãos. Ela nos acaricia e acolhe. Na beira de sua cama choramos nossas mágoas. Ela também chora com a gente. Ela nos abraça e nos faz ter a certeza que sempre poderemos contar com sua força maternal de grande sacerdotisa.

Mãe Lu é nossa Iyemojá, a grande mãe. Nela tudo é seio farto. Nela mora o sossego do mar calmo em dias de paz.

“Iyemojá a to f’ara ti bi oké – Firme como uma montanha”!
Tití àiyé!

No dia 26 de Novembro de 2016, celebraremos em nosso terreiro seus 50 anos de iniciação religiosa com o Presente (Panela) de Iyemojá e a saída de dois iyawò. Neste ato, vamos vibrar, louvar, celebrar o dom de termos esta grande mulher como nossa mãe e também de termos Ògúnté Mi como nossa regente soberana nos caminhos de odú.

Convidamos todas e todos. Axé!

Alexandre L’Omi L’Odò.
Omo Orixá - Historiador e Mestrando em Ciências da Religião.
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com 

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O Povo de Axé quer o Babá Paulo Braz Ifátòógún como Patrimônio Vivo de Pernambuco

Babá Paulo Braz. Foto de Marcelo Curia. MDS. 2010.

O povo de Axé quer o Babá Paulo Braz Ifátóògún como Patrimônio Vivo de Pernambuco


Nosso Babá Alapini Paulo Braz Ifátòógún está concorrendo ao Premio do Registro do Patrimônio Vivo de Pernambuco 2016. Ele é uma proposta muito relevante para que este edital reconheça pela primeira vez um Mestre de Matriz Africana, um Mestre dos saberes de terreiro, um Mestre da cultura yorùbá no Brasil.

Vamos vibrar positivamente e compartilhar muito as informações do nosso sacerdote para que o Conselho Estadual de Políticas Culturais de Pernambuco enxerguem ele com bons olhos e faça essa justiça história para o povo de terreiro.

Salve Babá. O senhor é um diamante da nossa cultura e religião. Axé!

#PaiPauloBrazNossoPatrimônioVivodePernambuco!

Foto de Marcelo Curia.

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

domingo, 23 de outubro de 2016

Povo de Terreiro e Política - Onde estão nossos votos?

Dona Laura. Juremeira e Iyalorixá da comunidade do Pina no Recife. Uma das "mães do Pina". Foto de Marcelo Curia. MDS. Acervo do Mapeamento dos Terreiros 2010.


Povo de Terreiro e Política – Onde estão nossos votos?

Inspirado pela leitura do livro “Os votos de Deus”, que faz uma análise das implicações da crescente presença eleitoral e parlamentar dos evangélicos na política desde de 2002, e também por ter sido candidato no pleito deste ano, vivenciando pela primeira vez esta experiência surpreendente, me debrucei a escrever este “artiguete” sobre o povo de terreiro e sua participação (ou tentativa de participação) na política eleitoral em 2016. As provocações realizadas e o conteúdo presente no texto do prof. Dr. Joanildo A. Burty e da profa. Dra. Maria das Dores C. Machado me incentivaram a propor com estas linhas escritas uma inicial reflexão crítica sobre os resultados do dia 02 de outubro e seus impactos para nosso segmento a partir de uma ótica pessoal minha, “linkada” com as conversas realizadas com amigos e amigas de luta sobre o tema. Isso para dar uma contribuição nesta pauta para o futuro do povo de Terreiro.

"O Povo de Terreiro presta pra alguma coisa?" 

“Onde estão nossos votos?”:

Ao confirmarmos os resultados gerais das eleições 2016 para vereadores e vereadoras, prefeitos e prefeitas pudemos observar em Pernambuco que nenhuma das candidaturas do povo de terreiro ou de representantes de outras comunidades tradicionais como quilombolas, indígenas etc. tiveram sucesso.

Ouvi muitos comentários sobre, como por exemplo: “O povo de terreiro é traíra”, “Povo de terreiro não vota”, “esses pais de santo só têm o voto deles pois não tem moral dentro de suas próprias casas”, “Não confio nos terreiros”, “já fui enganado pelos terreiros”, “o povo de santo é falso”, “esse povo de terreiro vende voto barato”, “temos que trabalhar e lutar por esse povo apenas pra ganhar o direito de comprar seus votos”, “o povo de terreiro só quer a velha forma de fazer política – vender seu voto barato”, “vocês são muito desorganizados”, “qualquer 50 reais de flores compra o voto dos pais de santo”, “não apoio mais essas bichas”, “esses terreiros não têm vergonha na cara”, etc.

Ouço e tento fazer um exercício interno de paciência para tolerar as opiniões agressivas dos que se sentiram de alguma forma traídos ou vilipendiados por terem investido nos terreiros e não tiveram resposta em votos e apoio nas campanhas. Ouvir e calar é difícil. Porém quando dá, faço minha intervenção tentando ser o mais coerente possível com a pessoa desolada por ter perdido... Afinal neste caso cabe muito mais uma atitude educativa do que um bate boca descabido com uma pessoa já magoada e revoltada com os fatos que alega.

Perante a tudo isso algumas reflexões para Povo de Terreiro se fazem pertinentes: Até quando vamos ficar nas sombras? Até quando não vamos eleger com força e unidade os nossos candidatos e candidatas do axé, da jurema, da umbanda, quilombolas, indígenas, ribeirinhos, etc.?

Essas perguntas merecem resposta coletiva nossa. Afinal, tudo isso é responsabilidade do nosso povo, pois somos nós que vamos ficar mais 4 anos sem representação política eleita nas câmaras municipais e nas prefeituras. Isso é um absurdo! Isso é preocupante perante ao avanço feroz dos e das fundamentalistas eleitos e eleitas. Observe em Recife quem foi a candidata mais bem votada perante a todas e todos os vereadores(as). Temos que estar alerta. Enquanto não nos organizamos e votamos certo, os inimigos da democracia e da laicidade ganham poder.

Candidatos e candidatas votados:

Foram vários os candidatos e candidatas de nosso segmento que encararam as urnas no último dia 02 de Outubro. Citarei alguns e algumas:

1 - Oscar Paes Barreto – Recife/PT – 5.533 Votos

2 - Pai Missinho de Oxalá – Olinda/PT – 411 Votos

3 - Mãe Mery – Camaragibe/PDT – 265 Votos

4 - Juarez Pé no Chão – Abreu e Lima/PMN – 238 Votos

5 - Pai Israel – Palmares/PCdoB – 148 Votos

6 - Pai Véu – Paudalho/ - 145 Votos

7 - Cláudio Pinho – Camaragibe/PT – 74 Votos

Candidatas sem votação no site:

8 - Mãe Lucia Yatemi – Catende/PRP – (Não foi registrada a votação no site)

9 - Mãe Adriana de Oxum – Jaboatão dos Guararapes/Solidariedade - (Não foi registrada a votação no site)

Candidatos preteridos pelo próprio partido:

10 - Alexandre L’Omi (que teve sua candidatura preterida pelo próprio partido e não pode prosseguir) – Olinda/PT

11 - Serginho da Burra (que sofreu golpe e não pode prosseguir) – Goiana/PT

12 - Edson Axé – Recife/PT (que sofreu golpe e não pode prosseguir)

Infelizmente nenhum e nenhuma teve sucesso. Pudemos ver casos de pouquíssima votação... E o caso de Oscar Paes Barreto que teve uma excelente votação mas não conseguiu chegar devido a sua legenda.

Pré-história política do Povo de Terreiro em Pernambuco:

Esta triste sina se repete há décadas, e nos cabe aqui fazer uma pré-história/memória política do povo de Terreiro em Pernambuco. Estes casos de fracassos se repetem consecutivamente há décadas. Temos como iniciante nesta luta o hoje Dr. Advogado Procurador Federal Edvaldo Ramos que na década de 1980, ainda comungando do convívio e parceria de Badia do Pátio do Terço saiu candidato à vereador em Recife por um partido de direita e não foi eleito. Temos o exemplo histórico do antológico Pai Edu de Olinda, que na década de 1990 (creio que no ano de 1994, a confirmar) foi candidato à vereador em sua cidade pelo PMDB apoiando a ex prefeita Jacilda Urquisa, e também não foi eleito. Outros casos tiveram o mesmo infortúnio, como por exemplo a candidatura à vereadora da hoje advogada e Iyábasé Vera Baroni no início dos anos 1990 (quando ainda não era iniciada no Orixá e representava o segmento da Saúde e do Movimento Negro). O hoje Ogan Edson Axé em 1998 foi candidato à Deputado Estadual pelo PSTU e em 2000 foi candidato à vereador em Recife pelo PT (nos tempos que ainda não era iniciado no Orixá Xangô nem na Jurema Sagrada e representava o segmento da Polícia Militar e Movimento Negro), ele também não foi eleito em nenhuma das duas instâncias. Já na década de 2000, tivemos algumas vezes a candidatura para vereador de Ivo da Xambá, que em algumas oportunidades colocou seu nome na luta política por partidos diversos, e não foi eleito em nenhuma das tentativas. Ainda temos a candidatura nesta mesma década do Mestre Afonso do Maracatu Leão Coroado em Olinda, babalorixá e grande mestre maracatuzeiro tradicional saiu candidato pelo PT e também não foi eleito. Ainda, tivemos temos o nome de Júnior Afro, ou Lindivaldo Júnior Leite, que foi candidato pelo PT em Recife já nos idos de 2010 e teve a sina dos seus antecessores. Por último, tivemos Oscar Paes Barreto que concorreu o pleito de 20014 pelo PT à deputado estadual e também não foi eleito.

Essa pequena linha histórica que revela a trajetória de luta político-partidária de nosso povo nos alerta para que pelo menos há 46 anos lutamos e não conseguimos vitória nas urnas. Não conseguimos eleger nenhum representante nosso e isso é motivo para reação!

Quais motivos?

Quais motivos reais podemos alegar para justificar nossos consecutivos insucessos nas eleições? Incompetência? A velha alegação de que fomos desde África separados e isso se reflete até hoje na nossa ausência de coesão e respeito mútuo? Que somos pobres e não conseguimos? Que somos despeitados uns com os outros e por isso não crescemos? Que nosso povo não tem voto? Poderia passar horas aqui tentando arrumar argumentos para justificar esta situação, mas prefiro focar em uma proposta de reflexão.

Em primeiro lugar devemos parar de nos vitimizar. Hoje estamos em outro nível de diálogo com a sociedade e temos conquistado espaços de visibilidade e respeito nos últimos anos da gestão do PT na presidência da república. Isso nos garantiu em um período histórico de 13 ou 14 anos alguns avanços consideráveis que já nos fortalecem para termos maior maturidade neste debate e luta.

Em segundo lugar, nós temos votos sim! E muitos. Em 2010 foram mapeados 1261 terreiros em Recife e RM - Região Metropolitana, mostrando pela primeira vez em amplo espaço de divulgação (internet e livros) onde estamos, quem somos, quantos somos e o que produzimos na perspectiva da segurança alimentar. Hoje somos muitos mais, ao passar desses últimos cinco anos da pesquisa, e creio que isso nos favorece e fortalece politicamente. 

Esta pesquisa foi realizada através de um trabalho muito sério da instituição Filmes de Quintal, MDS – Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome e UNESCO. Fui um dos pesquisadores de campo e vivenciei profundamente a visita de inúmeras casas e terreiros em toda RM. Pra se ligar e saber sobre o mapeamento visite o site: http://www.mapeandoaxe.org.br/ lá tem o registro geral de todas as casas/terreiros.

Se fizermos um simples cálculo matemático podemos pegar 1261 terreiros e multiplicar por 20 votos (quantidade mínima que um terreiro tem de participantes. Sabemos que existem terreiros que tem 200 filhos(as) ou mais...). Teremos o resultado de 25.220 (vinte e cinco mil duzentos e vinte) votos. Com isso já elegeríamos um ou uma deputada estadual por uma coligação mais baixa no coeficiente. Isso só com os votos da RM, imagine se fossem com os demais terreiros da Zona da Mata ao Sertão que ainda não foram mapeados e dos quais sabemos que são inúmeros?! Teríamos muitos e muitos votos para elegermos alguns representantes nossos...

Faço essa provocação para termos noção de como não valorizamos nosso potencial político e nossos votos. Nos alienamos fácil demais e nos dividimos fácil demais. Eu pude vivenciar na prática em Olinda o quanto o Povo de Terreiro tem baixa estima consigo próprio. O quanto não acredita que é possível. O quanto ainda se comporta de forma imatura perante assuntos de interesse vital para nossa classe. Entendo que somos herdeiros da senzala. Sendo assim, temos inúmeras dificuldades, inclusive de formação educacional etc. Também compreendo que estamos em processo de formação política ideológica. Passamos muitos séculos sem nos comunicar e nos fortalecer... Mas mesmo assim acredito que podemos em curto prazo de tempo mudar esta realidade.

Temos que deixar de apoiar políticos que prometem o mínimo para nosso povo. Chega de negociar por baixo, chega de negociar “carguinhos”, chega de baixar a cabeça para os partidos e pessoas que nos subestimam. Não podemos ser massa de manobra!

Temos que rejeitar os falsos favores. Os Toldos, mesas e cadeiras, tijolos, reforma da casa, animais para os rituais de imolação, cestas básicas, confeitos para o Cosme e Damião, cotas financeiras para as festas, ônibus para levar as cestas de Oxum e panelas de Iyemojá etc. Precisamos dar uma excelente resposta nas urnas nas próximas eleições e termos um ou uma representante nossa sentada em uma cadeira de destaque para nos ouvir e construir conosco o futuro que queremos.

Espero que nosso povo preste para alguma coisa sim! Que não sejamos apenas massa de manobra dos senhores e senhoras da casa grande. Que possamos levantar a cabeça e afirmar que não somos traíras, que não somos falsos, que não nos vendemos barato, que temos representatividade sim e que sabemos o que queremos para a política! Temos que afirmar que já temos em quem votar. E dizermos que nossos representantes tem trajetória e contribuição efetiva na luta de nosso povo. Pois também não nos serve oportunistas de terreiro. Ser juremeiro(a), babalorixá, iyalorixá, ekeji, ogan, abian etc. não justifica uma candidatura defendendo nossa plataforma. Queremos verdadeiros representantes de nosso Povo, cujo perspectiva corresponda à nossos anseios. Devemos evitar pessoas manipuláveis e politiqueiras (que sabemos que existem aos montes dentro de nossa religião).

Já estamos construindo rumos para as próximas eleições. Nossa Frente Popular Povo de Terreiro pela Democracia vai ficar mais forte e vai avançar. Afinal, merecemos respeito e temos que ter urgente representação.

Futuro

I Plenária Povo de Terreiro e Políticas Públicas. Foto de Úrsula Freire.

No último dia 05 de agosto de 2016 foi realizada primeira Plenária Povo de Terreiro e Políticas Públicas no Nascedouro de Peixinhos/Olinda. Uma iniciativa do então candidato à vereador da Cidade de Olinda Alexandre L’Omi e seu grupo político com apoio de quatro outros candidatos: Edson Axé, Serginho da Burra, Pai Israel e Juarez Pé no Chão. Esta plenária teve como principal pauta a discussão das eleições 2016 para o povo de terreiro, numa perspectiva de fortalecer os candidatos na visibilidade e na caminhada da campanha de cada um. Foi o primeiro momento na história de nosso povo que tivemos um evento com este objetivo, onde pudemos ouvir as propostas de todos e todas, onde pudemos avaliar os caminhos e as formas de agir no campo político e também analisar os rumos que deveríamos tomar daquela data em diante. Foi fundada por proposta de Alexandre L’Omi a Frente Popular Povo de Terreiro pela Democracia, na perspectiva de continuar esta discussão após as eleições e fortalecer um grupo político para enfrentar as urnas em 2018 e 2020. Vera Baroni foi a responsável pela conferência magna da tarde e trouxe fundamental conteúdo para contribuir em todo nosso contexto político e histórico. Foi lançada ainda a campanha “Quem é de Terreiro Vota em quem é de Terreiro”, proposta também de L’Omi.

Matéria do Jornal Folha de Pernambuco de 06 de Agosto de 2016. "Espaço para o 'povo de terreiro'".

Candidatos organizadores da Plenária. Da esquerda para a direita: Juarez Pé no Chão, Pai Israel, Edson Axé, Alexandre L'Omi e Serginho da Burra. Foto de Paulinho Filizola. 

O evento foi transmitido ao vivo pela internet e futuramente será publicado em suporte impresso e integralmente nas redes sociais para que nosso povo possa ter acesso a todo conteúdo que foi debatido neste momento histórico.  

#QuemédeTerreiroVotaemquemédeTerreiro!

Salve a Jurema Sagrada
Axé
Nguzo
Saravá
Sobô Nirê Mafá

Fonte

JOANILDO, A. Burity, MACHADO, Maria das Dores C. Os votos de Deus: evangélicos, política e eleições no Brasil. Recife, Fundação Joaquim Nabuco. Ed. Massangana, 2006.  

http://www.mapeandoaxe.org.br/ - Acesso em 10 de outubro de 2016 às 22h33min.

Contribuições

Historiador João Monteiro
Jean Pierre
  
Alexandre L’Omi L’Odò
Historiador e Mestrando em Ciências da Religião
Quilombo Cultural Malunguinho

alexandrelomilodo@gmail.com

domingo, 9 de outubro de 2016

Campanha - Pai Paulo Braz Meu Patrimônio Vivo

Pai Paulo Braz Ifátòógún - Alapini. Foto de Alcione Ferreira.

CAMPANHA
Pai Paulo Braz Meu Patrimônio Vivo!
#PaiPauloBrazMeuPatrimônioVivo!

Quem o conhece, quem passa algumas horas perto dele, quem escuta suas histórias e contos, quem o vê falando yorùbá e traduzindo, quem o vê cantar, quem o vê dançar, quem o vê celebrar a ancestralidade africana, quem o vê invocar os Orixás, quem joga o Ifá e descobre seu destino com ele não tem dúvidas, ele é um Patrimônio Vivo do Povo de Terreiro de Pernambuco e consequentemente do Brasil, um Patrimônio da Tradição de Matriz Africana, um Patrimônio Nagô.

Pai Paulo Braz IfáTòógún, é um raro sacerdote de Terreiro. Neto biológico de Felippe Sabino da Costa (Pai Adão) e filho do grande babalorixá Malaquias Felipe da Costa (Ojé Bií), ele é o herdeiro direto desta tradição nagô em Pernambuco. Babalorixá e Alapini (mestre do culto aos mortos/Eguns)do Ilé Iyemojá Ògúnté, leva à frente com muita garra os ensinamentos ancestrais de seu avô e pai.

Ele fala yorùbá! Isso mesmo. Nele está uma das últimas reservas dos saberes desta língua africana. Seus ensinamentos estão sendo repassados para os seus filhos netos e omorixás ("filhos de santo"), afinal, ele antes de tudo é um grande educador, um grande professor do divino, da tradição afro e da cultura popular.

Pai Paulo recebeu na Nigéria, pelos sumo sacerdotes e ministros de Ilé Ifé (terra sagrada africana) o título de Babá Ifá Muyidè, que significa "Ifá trouxe seu sábio filho de volta à sua terra natal". Esta honraria é uma das mais altas recebidas por um sacerdote na tradição africana, pois a partir deste momento ele foi consagrado um Osijé Agbaiyé - Um velho sábio detentor dos saberes totais da tradição, um mestre, uma referência para todos e todas irem se aconselhar.

Ele é simples. Mesmo sendo magnânimo é simples demais. Muito comunicativo e inteligente surpreende com suas longas preleções sobre os saberes orais nagô. Ele é um livro de grande valor. Nele estão guardados os símbolos necessários para a preservação de nossa memória, saberes e fazeres.

Ninguém que pertençe a tradição de terreiro pode dizer o contrário. Ele é Nosso Patrimônio Vivo!

Quem desejar conhecer sua história mais profundamente, visite este link e leia o texto que resume sua trajetória de vida na cultura e no axé: http://alexandrelomilodo.blogspot.com.br/2012/02/tio-paulo-braz-ifatoogun-um-sacerdote.html

Mais uma vez estamos indicando Pai Paulo para o Prêmio do Patrimônio Vivo de Pernambuco (foi indicado e não ganhou em 2013). Ele merece ser o primeiro Patrimônio Vivo de Matriz Africana contemplado deste edital, por uma questão de justiça e reparação. Afinal, ele tem todas as prerrogativas para ser aprovado por unanimidade.

Esta campanha a partir de hoje circulará na internet para fortalecer esta candidatura do Povo de Terreiro. Vamos compartilhar e enviar boas energias para o Conselho Estadual de Políticas Culturais de Pernambuco fazer uma escolha correta e justa elegendo Pai Paulo Braz como Patrimônio Vivo de Pernambuco, ele merece essa homenagem em vida, pois é um homem idoso e com muitos problemas de saúde.

Axé e que nossos Orixás e ancestrais o abençoem nessa luta. Vamos nos manter em orações africanas para essa vitória inevitável!

Kolofé babá wá!
Ibá ooooooooooooo!
Ire oooooooooo!

COMPARTILHEM!!!

#PaiPauloBrazIfátòógún
#PatrimôniovivodePernambuco
#PaiPauloBrazNossoPatrimônioVivo

Foto de Alcione Ferreira.

Alexandre L'Omi L'Odò
Historiador e Mestrando em Ciências da Religião
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com